BNDES quer aviões mais brasileiros

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Embora uma das principais empresas exportadoras do País, com receitas cambiais de US$ 2 bilhões no ano passado, a Embraer é também uma das maiores importadoras do Brasil com dispêndios de US$ 1,3 bilhões em 2003.

Para 2004, as previsões do vice-presidente da Embraer, Henrique Costa Rzezinski, são exportar US$ 3 bilhões, equivalentes a 160 aviões comercializados no exterior. Já as importações da empresa deverão subir para US$ 1,5 bilhão.

Segundo Rzezinski, em média 50% do valor dos aviões modelo 170 e 190 da Embraer é composto por itens importados. No caso de partes e componentes, o índice de importações chega a atingir 70% em média.

O setor, no entanto, visa a ampliar o nível de conteúdo nacional dos aviões brasileiros, num processo de adensamento das cadeias produtivas na indústria aeronáutica – tema do seminário realizado ontem no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

“Toda linha de montagem tem componente importado. É natural que tenha. Mas a proposta é tentar aumentar o componente nacional, integrando as cadeias produtivas sem perder competitividade, sem prejudicar qualidade e preço dos produtos finais”, disse o presidente do BNDES, Carlos Lessa.

Ele informou que o banco está contratando assessoria especializada da Universidade de Campinas (Unicamp) para fazer exame em profundidade da cadeia industrial do setor aeronáutico, visando a agregar tecnologia de ponta e a fortalecer as unidades industriais.

O mesmo está sendo feito no setor naval, com assessoria da Coordenação dos Programas de e Pós Graduação de Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O estudo da Unicamp deverá ser concluído em dois meses, acredita Lessa, o informando que um grupo de 22 empresas estão se propondo a fazer novos componentes nacionais para a indústria aeronáutica.

O vice-presidente da Embraer reconhece a importancia do engajamento do BNDES no processso de adensamento e expansão das cadeias produtivas do setor aeronáutico. Rzezinski admite que esta preocupação é nova no banco de fomento.

Ele destacou que o alto índice de importações de peças e componentes do setor deve-se, em muitos casos, à falta de escala para produção nacional. A fabricação das peças e componentes é feita lá fora sob especificações e desenhos da Embraer, disse ele, acreditando que somente um programa de governo poderá estimular a criação de escala de produção no País.

“Nos anos 90 não houve praticamente política industrial no País”, acrescentou Lessa, explicando porque, embora líder mundial na aviação regional, a Embraer ainda é fortemente dependente de importações.

As operações de financiamento à Embraer, no valor de cerca de R$ 4 bilhões por ano, representam a maior parte dos financiamentos do BNDES-Exim (braço de comércio exterior do BNDES). O estoque de financiamentos do BNDES-Exim à Embraer atinge R$ 7 bilhões, calcula Rzezinski.

Segundo ele, a empresa vem buscando fontes alternativas de financiamentos. Hoje, do total dos financiamentos à empresa, 55% vem do BNDES e 45% do mercado. Antes da crise mundial do setor, a relação era exatamente o oposto: 45% BNDES e 55% mercado.

Lessa acredita que os financiamentos do BNDES à Embraer crescerão este ano, pois a empresa está retomando vendas, após a retração do mercado noa no passado. Em 2004, a Embraer prevê exportar 160 unidades, quando, no ano passado, foram embarcadas apenas 101 aviões, volume abaixo da meta inicial de vendas de 150 jatos.

“Por um lado, a Embraer vem procurando diversificar suas fontes de financiamento. Por outro lado, temos tido o amparo dos ministérios do Desenvolvimento e da Fazenda para tornar mais cômoda a situação BNDES”, disse Lessa, referindo-se ao alto nível de exposição do banco estatal de fomento com operações Embraer.

O presidente do BNDES não quis dar detalhes sobre o que chamou de “amparo” dos dois ministérios. Mas sabe-se que parte das garantias às operações Embraer vêm sendo dadas pelo Tesouro Nacional, reduzindo, dessa forma, a exposição do BNDES nas operações de apoio à Embraer.

FONTE: Gazeta Mercantil – Fernando Valduga – Porto Alegre/RS