Engº Evandro Braga de Oliveira – CEO da VEM – Varig Engenharia e Manutenção

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Aviação Brasil – Estamos inaugurando uma importantíssima seção no Site Aviação Brasil que traz entrevistas regularmente com os principais executivos de companhias aéreas e empresas ligadas diretamente a aviação comercial. Temos a honra de começar esta seção com um dos grandes líderes deste setor, que é o Engº Evandro Braga de Oliveira, Presidente da VEM – Varig Engenharia e Manutenção, que gentilmente nos concede esta entrevista para dizer do momento atual da empresa, que faturou aproximadamente R$ 430 milhões de Reais em 2004, os prós e contras do ano atual e perspectivas para o próximo período.

Aviação Brasil – Presidente, como o Senhor analisa o ano de 2005, até este momento, pela VEM? Quais foram as principais conquistas da empresa e onde a empresa ainda poderá crescer?

Evandro Braga de Oliveira: O ano de 2005 foi um dos melhores anos para a VEM. No período de janeiro a setembro de 2005 comparados ao mesmo período do ano anterior nosso faturamento cresceu 52% e os serviços a terceiros quase 200% no período. Isto foi motivado pela ação estratégica da VEM para com alguns clientes. O fato de a Varig encontrar-se em recuperação não nos tem causado grandes problemas.

Aviação Brasil – Mas Presidente, aonde a recuperação da Varig chegou a causar algum problema para as operações da VEM?

Evandro Braga de Oliveira: Tinhamos um empréstimo a ser liberado pelo BNDES que visava o crescimento da companhia no Rio de Janeiro e Porto Alegre e o BNDES preferiu segurar esta liberação até que a situação da Varig seja totalmente resolvida.

Aviação Brasil – As conversões de aeronaves para cargueiras correspondem a quantos porcento do faturamento total da empresa?

Evandro Braga de Oliveira: Atualmente as conversões correspondem a menos de 5% do faturamento total da empresa. Nós pretendemos crescer nas conversões e para isso estamos avaliando junto a IAI Israel Aircraft um aumento de nossa parceria para conversão de outros tipos de aeronaves, além do Boeing 767, modelo que convertemos em nosso Centro de Manutenção em Porto Alegre.

Aviação Brasil – Como ficará a VEM no processo de reestruturação da Varig? Poderá ser vendida como a VARIGLOG?

Evandro Braga de Oliveira: A Varig não tem tratado da venda da VEM. A Varig é acionista da empresa e hoje não está sendo cogitada esta venda, apesar de fazer parte dos planos da Varig a venda da VEM. Tudo dependerá do processo de capitalização da Varig. Se o processo de capitalização for satisfatório não há motivos para vender a VEM, apesar de já haver interessados na compra individual da empresa. Na última quarta-feira, 19 de outubro, no entanto, o BNDES apresentou proposta concreta ao Comitê de Credores da Varig para adquirir a totalidade das ações da VEM, através de uma SPE – Sociedade de Propósito Específico, destinando os recursos para a capitalização da Varig no processo de recuperação. Da SPE poderão participar ainda outros investidores interessados nesse negócio ou na Varig. A SPE, com seus investidores controladores, poderá vir a integrar o quadro societário da Varig, linha aérea, com uma migração futura de seus ativos, voltando à estrutura societária hoje existente, retornando a VEM a ser uma subsidiária da Varig. O BNDES deve apresentar um plano detalhado na continuação da Assembléia de Credores, o que deve ocorrer no próximo dia 24 de outubro. É uma iniciativa concreta importante do governo federal para preservar dois dos mais importantes ativos do país, a Varig e a VEM, esta última uma das maiores e mais completas empresas de MRO do mundo, um ativo estratégico para o país, sem dúvida.

Aviação Brasil – Hoje, quais são os principais clientes da VEM e quais tipos de serviços que são mais requisitados?

Evandro Braga de Oliveira: A Varig responde por 60% dos serviços da VEM. As empresas cargueiras norte-americanas estão entre nossos principais clientes, realizando a manutenção dos widebodies MD-11, DC-10 e Airbus A300. Nosso portfólio em faturamento está dividido com 32% da receita proveniente de empresas dos Estados Unidos, 33% com empresas brasileiras e 35% com empresas da America Latina, Europa, Ásia e África. Os serviços mais requisitados são os de check C e D de aeronaves. Além dos checks, nossas oficinas estão homologadas pelo FAA Americano e pela EASA da Europa para revisão de cerca de 9000 componentes aeronáuticos e para 14000 componentes pelo DAC no Brasil. A VEM é uma das poucas empresas no mundo a fazer a revisão completa em trens de pouso, que é um nicho com bastante crescimento. Temos também um bom volume de serviços em APU´s e aviônicos, onde recentemente incorporamos o ATEC-6000, fabricado pela EADS Test and Services, que habilita a VEM a realizar testes e reparos em aviônicos das aeronaves Boeing 737NG, Boeing 777, Airbus A320, A330 e A340, além de aeronaves militares.

Aviação Brasil – O Centro de Tecnologia da TAM, em São Carlos, é uma possível ameaça a curto/médio prazo para a VEM na manutenção da linha Airbus? Quais seriam os diferenciais da VEM neste tipo de manutenção?

Evandro Braga de Oliveira: Não digo que o Centro de Manutenção da TAM será uma ameaça e sim um concorrente em médio prazo para a linha Airbus. O que pesa a favor da VEM é a sua larga experiência e ao grande parque de oficinas que demandaram investimentos pesadíssimos ao longo dos últimos anos. O fato de você poder fazer uma revisão completa de uma aeronave, inclusive de seus componentes internos em um mesmo parque, sem envolver o envio de equipamentos para outros locais, também é um grande diferencial. A própria TAM utiliza nossos serviços de componentes, revisão de trem de pouso e aviônicos, e contratam também serviços de outros fornecedores por não disporem ainda de um parque de revisão de componentes aeronáuticos, até mesmo porque, em muitos casos não se tem retorno do investimento sem um volume mínimo de serviços. Veja o caso das empresas aéreas de sucesso no mundo de hoje, elas tem departamentos de manutenção com menos de 20 pessoas, subcontratam tudo!

Aviação Brasil – Presidente, além do Airbus A300, a VEM está capacitada para realizar os checks dos Airbus 320?

Evandro Braga de Oliveira: Sim, a VEM está capacitada, mas ainda não está homologada pelo FAA e pela EASA. Para isso necessitaríamos de um cliente americano e um cliente europeu para obter estas homologações que demoram até 6 meses para serem concluídas. Estamos estudando também parcerias com outras MRO´s para viabilizar isso através da transferência de contratos. Já temos um acordo com a Airbus para o fornecimento de manuais, material e ferramentas desde 2003. Nossos engenheiros e técnicos já estão treinados pela Airbus e Lufthansa Training, tanto na teoria, quanto no pratico (on the job training).

Aviação Brasil – A Gol recentemente concluiu a primeira fase das obras de seu centro de manutenção em Belo Horizonte, Confins, e foi habilitada pelo DAC para check nos aviões Boeing 737-700 e Boeing 737-800. A VEM perderá os serviços de manutenção da GOL Transportes Aéreos?

Evandro Braga de Oliveira: Em parte perderá os serviços que hoje faz. Os serviços de componentes e outros serviços que a GOL não terá condições de realizar poderão continuar com a VEM. Desde o início dos trabalhos sabíamos que o objetivo da GOL era construir o seu Centro de Manutenção, ao contrário de outras empresas Low Cost como a Easyjet, Jetblue e a Ryannair, que como falei há pouco, não investem em manutenção.

Aviação Brasil – A VEM perdeu alguma concorrência recentemente?

Evandro Braga de Oliveira: Não perdemos, desistimos! Como se sabe, a Delta e a United Airlines estão deixando de investir na área de MRO. Estávamos participando de uma concorrência da Delta Airlines para manutenção das aeronaves Boeing 767. A VEM, apesar de ter ficado no short-list da concorrência, desistiu do processo devido à logística e o prazo estabelecido. Teríamos duas aeronaves Boeing 767 em paralelo realizando checks a cada 15 dias. Isto demandaria também um investimento por parte da VEM para comportar este serviço.

Aviação Brasil – A TAAG – Angola Airlines, comprou aeronaves Boeing 737-700 e Boeing 777-200 para substituir os atuais Boeing 737-200 e Boeing 747-300. A VEM já conversou com a TAAG para manter o contrato de serviços de manutenção nas novas aeronaves da empresa?

Evandro Braga de Oliveira: O relacionamento com a TAAG é antigo e muito bom. A VEM inclusive deu suporte recentemente à TAAG nas especificações e treinamento dos Boeing 737-700 e Boeing 777. A TAAG realiza contrato de avião por avião, não é um contrato por tempo determinado. Estamos estimando um prazo de 4 a 5 anos para que sejam realizadas as primeiras manutenções pesadas nos novos aviões da empresa. Com a TAAG estamos participando de uma concorrência “Total Care” de componentes e checks B e C. O Total Care é uma opção de contrato que une o planejamento à execução de todos os serviços de manutenção.

Aviação Brasil – Quem são os maiores concorrentes mundiais da VEM no mercado de MRO?

Evandro Braga de Oliveira: Os maiores concorrentes são a Lufthansa Technik, SR Technics, TIMCO, Air France Industrie, KLM Engineering Services, Singapore Aerospace e Haeco.

Aviação Brasil – Como está o planejamento da VEM para 2006 focando a conquista de novos clientes e manutenção dos atuais?

Evandro Braga de Oliveira: Para 2006 nós estamos praticamente com todos os slots vendidos. Não há mais slots para o 1º semestre e restam pouquíssimos para o 2º semestre. A empresa teve que negar serviço para vários clientes por este motivo. Estamos em fechamento com 3 grandes clientes americanos de operação de Airbus, MD-11 e Boeing 767, com cerca de 10 aeronaves de cada cliente. A VEM planeja aumentar a produção para atender a crescente demanda e não descarta a contratação de pessoal e novos investimentos a curto prazo. Sobre contratações, a VEM absorveu os funcionários terceiros que prestavam serviços diretos nas aeronaves, como os de limpeza e lavagem, antes operados pela SATA. Assim todos os funcionários que estão envolvidos diretamente nos serviços técnicos de uma aeronave são da própria VEM. Contra a empresa pesaram este ano a valorização do Real frente ao Dólar que obrigou a empresa a realizar um trabalho interno de redução de custos para assegurar margem de lucratividade, mas as perspectivas para o próximo ano nos deixam bastante otimistas, apesar da perda de competitividade no mercado internacional em razão da valorização do real.

Aviação Brasil – Obrigado Presidente pela gentileza em nos conceder esta entrevista e poder inaugurar nossa nova seção do Aviação Brasil com uma empresa tão importante no mercado brasileiro como a VEM.

Evandro Braga de Oliveira: Um abraço a você e a todos os leitores da Aviação Brasil.

FONTE: Aviação Brasil – Alexandre Barros – São Paulo/SP